Hoje me olhei no espelho com mais atenção. Não aquela atenção apressada do dia a dia, mas um olhar demorado, quase uma conversa silenciosa comigo mesma. Vi as rugas, sim. Elas estão ali, firmes, desenhadas ao redor dos olhos, da boca, na testa. Por um instante, pensei no tempo que passou. Mas logo entendi: não foi o tempo que deixou marcas em mim, foi a vida.
Cada ruga que carrego não nasceu do acaso. Elas surgiram porque eu ri muito, ri de verdade, até a barriga doer e os olhos se fecharem sozinhos. Vieram das conversas longas, das madrugadas em que o sono foi vencido por boas histórias, confidências e risadas sinceras.
Minhas marcas também falam de amor. Do amor que chega sem pedir licença e aperta o coração, do amor que nos faz sorrir com os olhos, do amor que transforma e deixa sinais. Falam de maternidade, de cuidado, de preocupação constante, de noites mal dormidas, de orações silenciosas e de uma alegria imensa a cada pequena vitória dos filhos.
Há rugas que nasceram das lágrimas. Das despedidas, das ausências, das perdas que a gente nunca esquece. Algumas lágrimas foram de dor, outras de saudade, outras de emoção pura diante de momentos que tocaram fundo a alma. Chorar também deixa marcas - e ainda bem.
Meu rosto guarda lembranças de sonhos tentados, de projetos que deram certo e de outros que ficaram pelo caminho. Guarda viagens, lugares que me encantaram, paisagens que me emocionaram e cantinhos que ainda moram dentro de mim.
Quando olho bem, percebo que meu rosto é um livro aberto. Cada linha é um capítulo vivido, cada marca é um sentimento que me atravessou. Apagar essas marcas seria apagar quem eu sou, minha história, minhas escolhas, meus afetos.
Hoje não pergunto mais como esconder as rugas. Pergunto o que ainda quero viver. Que novas emoções quero sentir. Que novas histórias desejo escrever na pele e no coração.
Aprendi que envelhecer não é perder beleza, é ganhar profundidade. Minhas rugas não são defeitos - são lembranças. São provas de que vivi intensamente, senti de verdade e amei com coragem.
E, da próxima vez que me olhar no espelho, não vou procurar o que o tempo levou. Vou agradecer tudo o que a vida me deu.
Jandira
Imagem: Freepik

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